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sábado, 12 de maio de 2018

terça-feira, 25 de agosto de 2015

a história desconhecida da ida de Jorge Jesus para Alvalade...


Nunca um treinador fez o que J.J fez: Trocar o Benfica pelo Sporting (ou vice-versa) em épocas consecutivas

Jantares com Jorge Mendes, conversas com Bruno de Carvalho até às 4h30 da manhã, SMS e viagens a Paris nunca feitas: do primeiro “contacto de malucos” ao “estes gajos não me querem lá”, a história desconhecida da “bicada do século” do Sporting ao Benfica

ANATOMIA DO ‘GOLPE’, PASSO A PASSO

Jorge Jesus atendeu o telefone, e do outro lado da linha estava o senhor X, que ele conhecia de outras andanças, de outros negócios. “Está tudo bem contigo e com a tua família?”, perguntou o senhor X, mas o que lhe interessava saber era como estavam as coisas entre ele e o Benfica. O senhor X abriu o jogo, disse-lhe que estava a telefonar mandatado pelo Sporting e por Bruno de Carvalho (BdC), que o queria a ele e não queria Marco Silva. “É tudo muito bonito”, respondeu-lhe Jesus, mas o senhor X e BdC só podiam estar malucos — onde é que já se tinha visto aquilo, o Sporting com dinheiro para pagar o que pagava o Benfica, se o que se contava era que não tinha um euro para mandar cantar um cego?... O senhor X descansou-o.
“O dinheiro é com o Sporting”, disse ele, pedindo-lhe que avançasse um número, não aquele que achava poder receber em Alvalade, mas o que realmente queria. “Cinco milhões.” O senhor X anotou e prometeu ligar-lhe dentro de dias com novidades. Despediram-se. Uma semana depois, o senhor X voltou a ligar, e Jesus ouviu o que queria. “Cinco milhões de euros. Se quiseres, são teus.” Jesus não quis, ficou de pensar no assunto, ainda tinha tempo. Aqueles eram os primeiros dias de maio, e nem ele nem Luís Filipe Vieira tinham falado da renovação; e havia um campeonato e uma Taça da Liga para ganhar. Além disso, sobretudo por isso, Jorge Mendes ficara de arranjar-lhe um clube grande dos grandes campeonatos.
Do lado do treinador, o assunto ficou em banho-maria, mas em Alvalade começou a cozinhar-se um futuro com Jesus, e as informações não demoraram muito a transpirar do edifício da SAD. No dia 18 de maio, uma segunda-feira, num almoço informal de Bruno de Carvalho com três jornalistas, o tema Jesus caiu no prato. “Isso é impossível”, desmentiu BdC. Tudo treta, conversa do Jesus para o Benfica subir a parada. Na quarta-feira, 20 de maio, “A Bola” fez manchete: “Sporting quer Jesus” — e BdC voltou a desmentir. “Se ele vier”, ironizou na Euronext Lisbon, “o Cristiano Ronaldo e o Messi também são bem-vindos, de caretas.”
BdC tinha de manter cara de póquer enquanto esperava que Jesus resolvesse a sua vida; e a vida de Jesus estava nas mãos do deus dos agentes. No dia 26 de maio, terça-feira, o treinador e Jorge Mendes jantaram no Hotel Tivoli, e o segundo mostrou ao primeiro a carteira de clientes. Pediu-lhe compreensão. “É o que há”, confessou Mendes. O que havia era poucochinho: o Real Madrid preferia um espanhol a um estrangeiro; a reunião com Laporta não dera em nada; e Bartomeu continuaria presidente do Barcelona e Luis Enrique treinador do Barcelona. E, continuou Mendes, já que nem os oito milhões dos chineses nem a Lazio lhe serviam, o Qatar era uma alternativa simpática, uma espécie de aninho sabático e bem pago (seis milhões de euros), enquanto Laurent Blanc não caísse da cadeira no PSG. Jesus disse a Mendes que não queria nada daquilo, e Mendes disse a Vieira que Jesus não iria a lado nenhum. O presidente do Benfica iria tentar convencer Jesus uma última vez.

“ESTES GAJOS NÃO ME QUEREM LÁ”

A 29 de maio, sexta-feira, o Benfica venceu a Taça da Liga (2-1 ao Marítimo), e Jorge Jesus marcou um treino para o fim de semana, porque a época só acabava no domingo. Depois do jogo, no autocarro, Luisão disse a Jesus que nem pensar, que era tempo de férias e que havia malta com bilhetes na mão para o Brasil. O treinador cedeu. Mas Jesus ainda não estava de férias. Na segunda-feira, 1 de junho, encontrou-se com Vieira na Luz e falaram sobre o que queriam fazer do Benfica. Avisado por Mendes e com as capas dos jornais na cabeça, Vieira garantiu a Jesus o mesmo ordenado, sob algumas condições — a tal fórmula 20 + 5, um plantel com 20 jogadores à escolha do treinador e cinco miúdos da formação. Em 30 minutos, Jesus ficou a saber ao que ia; nos restantes 90, ficou a perceber ao que Vieira ia. “Vê lá a tua vida, tens família, casa, não estás para novo, o Mendes consegue arranjar-te um clube onde ganhes bem.” E falou-lhe do avião que estaria pronto, assim que Mendes viajasse nele do Porto para Lisboa, e que os levaria para Paris.
Jesus sentiu-se a mais e ligou a um amigo: “Estes gajos não me querem lá.” No dia seguinte, ele, o advogado e o amigo encontraram-se às 8h30 na sua segunda casa na Aroeira, construída com 800 mil euros avançados pelo Benfica. Jesus não tinha pregado olho, dizia que não sabia o que faria da vida e pôs-se a divagar sobre o Benfica, com quem tinha contrato, sobre o FC Porto, que o abordara há meses, e sobre o Sporting, que lhe prometera cinco milhões de euros.
O pensamento foi interrompido por um telefonema. “Já tens as malas prontas?” Às 8h50, Vieira pressionou-o para ambos irem com Mendes a Paris, mas Jesus negou-lhe o capricho, porque não iria para uma mostra pela mão de ninguém. Discutiram durante cinco minutos, e a chamada terminou com um “volto a ligar-te” do lado de lá.
Foi então que Jesus pôs em marcha o plano: telefonou ao senhor X, que ligou a Bruno de Carvalho, e este pediu ao senhor X que dissesse a Jesus para estar na casa do administrador Rui Caeiro, na morada tal, às nove da noite. Jesus jantou com BdC e com Rui Caeiro e, em 10 minutos, acordaram os valores; o resto foi conversa de bola até às quatro e meia da manhã. O dia seguinte, 3 de junho, quarta-feira, seria longo e começou pelas 8h30, quando Jesus deu a palavra a BdC de que seria o seu novo treinador. Seguiram-se duas reuniões: uma, às 15h30, em Alvalade, entre BdC, dois administradores leoninos, o senhor X e o advogado de J.J.; e outra, às 18h, num escritório de advocacia, com J.J. num dos pisos, os administradores do Sporting noutro, BdC em Alvalade e os advogados a fazerem ‘piscinas’ entre andares. Às tantas, o Sporting fez uma exigência: a cláusula de rescisão. Jesus não gostou: só por uma vez tivera cláusula, com o Benfica, e se o Sporting não retirasse a alínea ele lavaria as mãozinhas da coisa e ficaria na Luz, de onde lhe telefonavam há horas sem que ele atendesse. Vieira, Paulo Gonçalves (responsável jurídico das águias) e Rui Costa; e um deles deixou a mensagem: “Cinco, seis milhões de euros.” Era tarde. BdC cedeu a Jesus e fez-se um memorando de entendimento. Às 21h, a notícia rebentou: J.J. no Sporting. [Fontes próximas do Benfica negam a oferta de última hora e garantem que as únicas mensagens trocadas entre Jesus e Vieira aconteceram às duas da manhã: J.J. disse ao presidente que tudo o que vinha nos jornais era verdade; Vieira disse a J.J. que a lealdade não se compra por tuta e meia.]
A assinatura do contrato foi adiada de quinta-feira, dia em que Jesus foi barrado no Seixal, para sexta, porque o Sporting queria resolver-se com Marco Silva; e J.J. atrasou as suas férias dois dias (partiu num cruzeiro no sábado, 6 de junho). Ainda houve um contratempo: uma das vias do contrato estava mal reconhecida, e o problema só ficou resolvido às 22h, com uma esferográfica a pôr o preto no branco no meio da rua. Estava feito. J.J. lá foi para as Américas, por entre flashes e perguntas sem resposta no aeroporto de Lisboa; a 9 de junho, terça-feira, BdC referiu-se a este ‘golpe’ como “a bicada do século”, num encontro com jornalistas. A guerra entre Benfica e Jesus começava aqui — os da Luz não lhe pagariam o salário de junho e lançariam uma intenção de processo por quebra unilateral do contrato. Para o Benfica, J.J. trabalhou em Alvalade quando ainda era seu assalariado.

“FUI ESCORRAÇADO DO SEIXAL”

Há dois indícios públicos de que Jesus tenha pulado a cerca antes de tempo: primeiro, Danilo, que o Sporting quis mas acabou no Dragão, disse que andava a falar com Jesus por telefone, a 13 de junho, um sábado; depois, o próprio Jesus foi apanhado pelos jornalistas na quarta-feira, 17, em Alcochete, naquela que apelidou de visita de reconhecimento. [Entre Danilo e Alcochete, Rui Vitória foi apresentado no Benfica a 15 de junho.]
Foi um erro tático de J.J., e um amigo disse-lhe que tinha dado muito nas vistas e que não devia admirar-se se o Benfica não lhe pagasse o salário de junho. “Mas então porquê?”, perguntou J.J. “Espera e verás.” Não foi preciso esperar muito. Domingos Soares de Oliveira, CEO do Benfica, enviou uma carta a 23 de junho a pedir a comparência de Jesus na Luz no dia 26, por questões de “extrema gravidade”, mas a missiva só chegou ao treinador a 29 porque fora enviada para a antiga morada — a primeira casa na Aroeira. Foi Ivone, a mulher de J.J., que deu com ela. [“Não é a morada errada, mas a que consta nos Recursos Humanos. Quem tinha de mudar o endereço era o visado”, refuta alguém próximo da Luz.] Jesus responde a 29, escrevendo que fora “escorraçado do Seixal” e que por isso não tinha nada que comparecer no estádio. O Benfica recebe o texto de J.J. a 30, o último dia do contrato que ligava as partes.

“É UM DESCANSO”

A 5 de julho, o dinheiro não caiu na conta de Jesus, que esperou um pouco mais, porque era domingo e podia ter havido um atraso no sistema. A 8 de julho, quarta-feira, J.J. telefonou a Vieira, que lhe disse que o Benfica não era com ele, que não tinha nada a ver com aquilo, que era coisa de Soares de Oliveira. O impasse prolongou-se até meados do mês, até que Vieira deu autorização para que as partes começassem a falar. Os dois advogados, do Benfica e do treinador, puseram-se em contacto e alinhavaram uma data para uma reunião: 3 de agosto, segunda-feira, um dia depois do casamento de Jorge Mendes, onde Jesus e Vieira conversaram sobre o tema. Mas o encontro é adiado para 10 de agosto, logo após a Supertaça, que o Sporting ganhou por 1-0; a 13 de agosto, o “CM” fez manchete com as mensagens de Jesus aos jogadores do Benfica enviadas antes da Supertaça; e a 14 de agosto, às 17h11, a entourage de Jesus recebeu a informação de que o Benfica iria acionar judicialmente o treinador por quebra de contrato. Ninguém avisou J.J. das intenções dos encarnados, porque o Tondela-Sporting se jogava nessa noite, mas convenceram-no a falar das SMS com Talisca após o encontro... se o ganhasse. “Assim, vais de peito cheio.” O Sporting venceu em Aveiro, por 2-1, e Jesus desafiou o Benfica a mostrar as SMS na conferência de imprensa. J.J. tem a certeza de que nenhuma mensagem trocada com os futebolistas encarnados o compromete — teve uma “conversa de chacha” com Talisca quando Bruno Paulista lhe perguntou pelo antigo colega do Bahia; falou com Salvio porque quis saber como é que ele andava de saúde; e recebeu algumas SMS que lhe massajaram o ego, como esta: “Desde que se foi embora, isto é um descanso, mister.”
A história ganhou vida: no domingo, 16 de agosto, o comentador Rui Santos revelou na SIC Notícias que Jesus não recebeu o ordenado de junho; e, na segunda-feira, o Expresso escreveu que o Benfica queria processar Jesus em 7,5 milhões de euros, o valor da cláusula de rescisão. Agora, não há volta a dar, chegou-se a um divórcio litigioso e só há duas vias a seguir: tribunal de trabalho ou arbitral. A primeira hipótese, mais demorada, será a mais real. Porque o Benfica e Jesus vão marcar-se um ao outro esta época. Como um gato e o rato, que lhe fugiu.


terça-feira, 18 de agosto de 2015

grande entrevista do treinador do Benfica Rui Vitória ao Expresso...


“Às vezes um jogador precisa de um abraço, outras de uma marretada nas costas”

Não sabe se é mais do que um treinador, mas gosta de pensar que é. Conheça o homem que Luís Filipe Vieira escolheu para substituir Jorge Jesus. “Sou vaidoso q.b., um bom garfo e acho sempre que temos alguma coisa a provar”

Disse numa entrevista que soube que ia para o Benfica quando recebeu um telefonema de Luís Filipe Vieira. Onde estava na altura?
Estava com a minha mulher e com as minhas filhas. Primeiro, pensei: “O que é que se passa aqui?” Mas foi como mera curiosidade, e depois eu e o presidente continuámos a falar. E só a partir daí é que percebi o que estava em causa naquele telefonema.
O que sentiu?
Nada. Foi do género: “Espera lá, que está aqui um convite do Benfica... Se calhar, é a sério.” Às vezes, imaginamos estas coisas.
Acreditou naquilo que lhe estava a acontecer?
Acreditei, porque conheço o Luís Filipe Vieira, e quando ele falou comigo percebi logo que era uma coisa muito séria.
Qual foi a primeira pessoa a quem contou? Depois da sua mulher, obviamente.
Ficámos ali os dois a pensar, porque não queríamos divulgar o que quer que fosse. Só depois é que comecei a falar com os meus dois adjuntos, quando as coisas já estavam fechadas com o Benfica. É que eu sou muito assim, mantenho o segredo. E, se a minha mulher não estivesse ali ao lado na altura do telefonema, nem ela teria sabido.
Fala de futebol com a família?
Não é muito meu hábito. Temos de proteger quem está connosco. O futebol é um mundo à parte, e quem está de fora não percebe que o treinador e o jogador sentem e fazem coisas diferentes dos outros, com algumas regras que diferem. Por isso, gosto muito de me reservar.
Em sua casa há muitas coisas relacionadas com futebol?Não... Tenho três filhas, e Deus queira que nenhuma delas vá para o futebol feminino.
Está-me a querer dizer que o futebol não lhe entra em casa?
É assim... Uma das minhas filhas anda muito preocupada com quem entra e sai do Benfica. Ela não sabe bem quem é quem, mas pergunta: “Então mas este sai daqui ou quê?” Mas tento que a minha vida pessoal fique bem separada da profissional.
Toda a gente sabe que é benfiquista, mas passava-lhe pela cabeça um dia treinar o Benfica?
Sempre quis subir na vida, na carreira, mas nunca vi as coisas dessa forma. As coisas foram conquistadas ano a ano, mas nunca vivi de muitas ilusões. Sou muito pragmático. Cada obstáculo que aparecesse, teria de ultrapassá-lo, estabelecendo novos objetivos. Mas é óbvio que cheguei a uma altura em que pensei estar pronto para dar o salto para um clube de outras dimensões, e o Benfica é a cereja no topo do bolo. Já cá tinha estado [como treinador de juniores].
Nasceu e viveu onde?
Nasci em Alverca e vivi em Alverca durante muitos anos e só mais tarde é que me mudei para a Póvoa de Santa Iria e depois para Paços de Ferreira e Guimarães. A minha infância, juventude e o meu primeiro casamento — aconteceu tudo em Alverca. Fiz lá a escola, joguei lá muitos anos, é a minha terra. Tenho lá as minhas raízes, a minha família, os meus amigos. Tive uma infância boa, fui bom aluno até ao 12º ano, sem nunca ter chumbado e com boas notas. Só que no 12º ano, tinha eu 17 anos — estava a treinar nos juniores e a jogar nos seniores do Alverca —, decidi armar-me em futebolista: “Se não fizer este ano, e tal, também não faz mal, porque tenho 17 anos.” O que aconteceu? Chumbei. É o que dá armar-me em jogador de futebol [risos], armar-me em bom.
E os seus pais?
Não reagiram mal, até porque eu nunca dei trabalho, ao contrário do meu irmão, mais velho, que era bem pior do que eu. Ele hoje é uma joia de pessoa, talvez bem melhor do que eu, mas quando era miúdo... era reguila... Temos seis anos de diferença, mas ouço cada história de bradar aos céus. O meu pai, de vez em quando, chegava-lhe a roupa ao pelo. A mim, não. Quer dizer... Uma vez, sim, aconteceu uma vez.

Porquê?
Porque eu e o meu irmão andávamos à zaragata na rua e à hora de jantar estávamos a jogar futebol na rua. Lembro-me perfeitamente: o meu pai estava a chegar do trabalho, perto das oito da noite, hora sagrada para o jantar, e eu e o meu irmão estávamos ali sentados à entrada. Disse a minha mãe: “Eles hoje só andaram a fazer asneiras.” O meu pai deu uma chapada a cada um e ficou resolvido o assunto.
O que fazia o seu pai?
Era soldador, e a minha mãe era escriturária. O meu gosto pelo futebol vem do meu pai, que tinha sido guarda-redes do Alverca nos tempos antigos, e eu, desde miúdo, habituei-me a acompanhá-lo em tudo o que era bola. Lembro-me de, ao fim de semana, ir com ele ao Alverca. Começávamos de manhãzinha, voltávamos à hora de almoço a casa, e às três da tarde regressávamos. Víamos os escalões todos. Conhecia as equipas todas, juniores, seniores; e aos 9, 10 anos, quis jogar futebol e fiquei para sempre ligado a isto.
Jogava como médio?
Sim.
E o seu irmão também jogava?
Jogava pelas alas, mas, também... Quer dizer, o jeitinho dele não era muito. Lembro-me de ele chegar a casa um dia e dizer que podia ter sido um grande jogador mas que o pai lhe tinha cortado as pernas... Pois, está bem [risos]. “Ai a culpa é do pai? Está bem, está.”
E o Rui?
Eu tinha jeito, mas o jogador Rui Vitória nunca jogaria com o treinador Rui Vitória. Porquê? Porque hoje exijo coisas aos meus jogadores que eu, quando era futebolista, não cumpria. Estava a tirar o meu curso de Educação Física e havia muito aquele conceito de “primeiro os estudos, depois o futebol”. Cheguei a jogar na segunda divisão, o que não é mau. Tinha boa capacidade de leitura e gostava de organizar o jogo e até rematava bem, mas faltava-me convicção.
Era calão, não corria...
Pois. Correr, trabalhar... Eu era mais do estilo: “Passem-me a bola que eu resolvo.”
Tinha ídolos?
Rui Costa, Zidane, Platini, João Alves, basicamente todos os que eram médios centro.
Ia ver jogos à Luz?
Sim, com o meu pai, quando a vida deixava, porque naquela altura não dava para grandes aventuras. Mas lembro-me de um 5-0 ao Sporting, na Luz, em que ao intervalo o Benfica já estava com 5-0! Era o tempo do Jordão, do Laranjeira, do Botelho... Eu vivia aquilo com ansiedade como adepto. Os 40 minutos à Benfica, não era? Ou seriam os 15 minutos?
Perdeu os seus pais cedo, em 2002...
[silêncio] Foi num sábado à tarde. Estava a beber um café com uns amigos na Póvoa [de Santa Iria] e recebi um telefonema. Disseram-me que tinha acontecido uma coisa grave, e eu pus-me a caminho de Alverca, e foi só então que percebi o drama — os meus pais tinham morrido num acidente de carro. Eram três e pouco da tarde. Morreram os meus pais e os pais do meu melhor amigo [Paulo Xavier], que é padrinho da minha filha e que tem um filho do qual sou padrinho. Também jogou futebol, no Benfica. Ninguém nos prepara para isto. E ganha-se uma espécie de carapaça, nada nos pode atingir. Lembro-me de que enfrentei aquilo de peito aberto. Já era casado, tinha uma filha pequenina e tive coragem. Hoje, vejo que tive de ser forte e arranjei defesas. Fui eu que levei os meus pais para a cova, acompanhei-os até ao fim, no caixão. A partir daí, todos os problemas que enfrento são relativizados. Quando tenho de tomar decisões, lá tocam o Tico e o Teco na cabeça, que me dizem: “Olha lá, já tiveste de sofrer tanto, estás com medo do quê?” Aquilo mudou a forma como eu pensava. Tinha 32 anos.
Quando seguiu para Edução Física, queria ser professor ou treinador?
Eu queria ser treinador e queria que isso acontecesse cedo na minha vida. Mas tirei o meu curso, com 24 ou 25 anos, enquanto jogava, e recordo-me de o meu treinador perguntar-me coisas do género: “Então isto é assim ou assado?” Aos 32 anos, deixei de jogar e comecei a treinar.
Foi uma mudança súbita?
Os meus pais morreram no dia 21 de setembro, e no dia seguinte já não joguei pelo Alcochetense. No domingo seguinte tive dois convites para treinar: um do Alcochetense e outro do Vilafranquense. Numa semana, a minha vida mudou completamente. Na segunda-feira à noite faço o último treino como jogador, no Alcochetense, na terceira divisão, e na terça-feira de manhã faço o meu primeiro treino como técnico, no Vilafranquense, na segunda. Imagino o que terá passado pela cabeça dos tipos do Vilafranquense quando me viram a treiná-los — eu que, há dias, era médio num clube de uma divisão inferior. E já tinha sido capitão de equipa do Vilafranquense [risos].
E os presidentes dos clubes não levantaram problemas?
Levantaram... No domingo à noite recebi dois telefonemas: um para treinar em Alcochete, outro para treinar em Vila Franca. Quem me contactou primeiro foi o Vilafranquense, às nove da noite; 30 minutos depois liga-me o Alcochetense. Eu decidi-me pelo Vilafranquense porque me ligou primeiro, porque fora jogador lá durante anos e porque... estava na segunda divisão. Tive de marcar a minha posição, fiz finca-pé.
E como foi a primeira experiência a treinar?
Foi um estágio para o que ia apanhar na vida [risos]. Em dois anos, somámos nove meses de salários em atraso, quatro ou cinco na primeira época, quatro ou cinco na segunda. A malta ganhava pouquíssimo, eu levava mil euros (tinha a sorte de também ser professor), mas havia quem não pudesse ir treinar porque não tinha dinheiro para o gasóleo ou porque tinha contas para pagar. Eu, como jogador, nunca tivera um salário em atraso, nem no Vilafranquense. Isto obrigou-me a puxar pela cabeça constantemente, porque tinha de estar do lado da direção um dia e do lado dos jogadores no outro. Tudo com muitas pinças. Mas nós corríamos e trabalhávamos muito e marcámos 140 golos, acho, no primeiro ano; no segundo, houve uma redução orçamental drástica — está visto que estou fadado para isto, para projetos difíceis [no Vitória de Guimarães, Rui Vitória teve de lidar com salários em atraso]. Acabado esse ano apareceram-me duas ou três oportunidades para treinar na segunda divisão, na região de Lisboa. E, então, o Benfica convidou-me para ir para os juniores, mas eu não queria ser rotulado como treinador de jovens. Repensei. “Às tantas, isto é importante para a tua carreira, para perceberes os jovens e conheceres a realidade de um clube grande.” Cumpri dois anos, e no primeiro deles estivemos a 15 minutos de sermos campeões, num jogo contra o Sporting de Paulo Bento, em que houve umas decisões de arbitragem de que, enfim, não vale a pena falar agora. No ano seguinte, as coisas não correram tão bem, e eu decidi — e o Benfica também — que era altura de partir. Sem clube em vista.
Não foi arriscado?
Foi, sim, mas felizmente, na semana seguinte, recebi um convite do Fátima. Foi uma coisa de dias, e levei o Arnaldo [Teixeira, o adjunto] comigo pela primeira vez. Achei que ele tinha o perfil ideal para ser o meu braço-direito, porque já o conhecia da escola onde dava aulas. Cheguei ao Fátima, que fora segundo classificado na II B com o Paulo Torres, e pensei: “Eh, pá, estes agora querem que eu seja primeiro...”
Houve redução orçamental?
[risos] Houve, claro. É a minha sina. Mas fomos campeões e subimos de divisão, à II Liga. É um percurso de quatro anos que fica marcado por aquela eliminatória com o FC Porto, na Taça da Liga, que passámos. E perdemos com o Sporting por causa dos golos marcados fora. Tenho cá para mim que, se tivéssemos passado, a Taça da Liga tinha acabado naquele ano [risos], sem Benfica, FC Porto e Sporting. Foi nessa altura que me armei um bocadinho em treinador, e explico porquê: pedimos umas credenciais para espiar o FC Porto num jogo internacional; um ficou com o processo ofensivo, outro com o defensivo, e eu com o plano geral, armado em catedrático da coisa... Mas acabámos por eliminar o FC Porto com base nos apontamentos que tirámos.
O seu telefone tocou depois disso?
Aquilo criou curiosidade às pessoas, e dei algumas entrevistas, porque teve impacto. Eliminando o FC Porto e batendo o pé ao Sporting, tornei-me conhecido.
No Fátima, o presidente era o padre António Pereira...
Isso é giríssimo, não é?
Confessou-se com ele?
Não, não, nunca. Sou católico, mas não pratico. Mas lembro-me de que ele tinha este discurso: “O que é preciso é que ninguém se aleije, que haja saúde.” Estávamos ali nós, naquela de ir para o jogo, com o discurso agressivo, e vinha o padre e dizia aquilo [risos].
E é supersticioso?
Sou e não sou. Tenho rituais de conforto.
Tais como?
Eu sei lá [silêncio]. Olhe, entrar com o pé direito, usar a mesma roupa da semana passada, em que ganhei. Mas recordo-me daquela eliminatória com o FC Porto para a Taça da Liga em que disse para o meu adjunto: “Arnaldo, quando formos para os penáltis, viro-me de costas para o campo. Já sei que, se ganharmos, isto vai ser notícia.” E correu bem. A partir daí, passei a pôr-me de costas para o relvado nos penáltis. São pancadas que nós temos.
De Fátima foi para o Paços, onde chegou à final da Taça da Liga, e do Paços seguiu para Guimarães. E, no primeiro treino, os adeptos invadem-lhe o campo...
Vou dizer-lhe isto do fundo do coração. Quando vi a invasão, pensei: “Era mesmo disto que eu precisava. Estou num clube grande.” Depois do treino, tinha o telemóvel cheio de mensagens e chamadas, com as pessoas preocupadas com aquilo, pensavam que eu tinha levado uma trepa. Mas foi estranho, porque eu ia atrás dos jogadores, no túnel, para o treino, e ouço alguns deles: “Ó mister, já estão ali a bater no Faouzi [futebolista].” Estava eu a querer entrar no campo e eles a voltarem para trás, porque andava tudo engalfinhado, adeptos com futebolistas. A partir daí, os treinos foram sempre à porta fechada. Eu ouvia muitas histórias de antigos treinadores que foram apertados em Guimarães e pensava: “Isto vai tocar-me um dia.” No primeiro ano, lá está, dá-se o colapso financeiro e aparecem os salários atrasados.
Ainda assim, ganhou a Taça de Portugal ao Benfica de Jorge Jesus...
Foi um percurso difícil, mas fomos criando uma secção chamada “Secção Taça de Portugal”. Utilizávamos as mesmas metodologias e a mesma música sempre que jogávamos as eliminatórias da Taça de Portugal, que fomos passando. Eu sinto que conseguimos ganhar aquilo no dia em que eliminámos o Sporting de Braga, na meia-final, estávamos nós completamente a cair para o lado, esgotados. E chegámos ao Jamor com cinco meses de salários em atraso — os jogadores, aliás, tinham seis meses de salários em atraso.
O Benfica tinha perdido o campeonato e a Liga Europa...
Nas semanas que antecederam a final havia as duas correntes do costume: se o Benfica ganhasse o campeonato e a Liga Europa, ia relaxar no Jamor, e isso seria bom para nós; se o Benfica perdesse tudo, iria querer vingar-se no Jamor, e isso seria mau para nós. Eu preferia que o Benfica fosse derrotado, porque não acredito muito na história das vinganças; acho que uma equipa grande fica sempre mais frágil se perder grandes competições, ainda por cima consecutivas. O que eu transmiti aos meus jogadores foi isto: “Ou matamos ou morremos.” Tinha de aproveitar a fragilidade emocional e física do Benfica. “Vamos entrar com tudo.” Fiz um powerpoint com seis cenários, e num deles abordámos a derrota. Fui o mais transparente possível, porque sofrer um golo do Benfica é normal. E isso aconteceu, num ressalto do Gaitán. E pensámos: “Eh, pá, o Benfica podia ter feito um golinho de jeito, mas, assim, com a bola a bater no pé do Gaitán... Parece que nos querem mandar mais para baixo.” [risos] Ao intervalo, senti os jogadores perdidos. Disse-lhes: “Isto está dentro dos planos. Vocês sofreram um golo e não se desuniram. Continuem da mesma forma, que o Benfica pode fraquejar fisicamente.” Fomos felizes.
Um treinador tem de acreditar sempre no que diz ou está a ser um ator perante os jogadores?
Às vezes, temos de fingir.
Escreveu um livro baseado na “Arte da Guerra”. Leu-o quando?
Fui lendo durante a minha vida. Recebi um convite de uma editora e fiz um transfer do Sun Tzu para o futebol.
Já se sabe que toca bateria, mas quem é que o ensinou?
Comecei a brincar sozinho. Era miúdo, na casa dos meus pais, e as portas faziam um barulho engraçado quando eu batia nelas. E lá vinha a minha mãe: “Para com isso!” Mas eu sempre tive esse ritmo [bate com os dedos no tampo da mesa]. Aos 10, 11 anos, fui aprender bateria com o baterista dos Ferro & Fogo, o Seixas, que tinha uma grande barba e trabalhava em oficinas. Durante uns meses, fiquei ali ao lado dele; depois, deixei-me daquilo, mas sempre que via uma bateria em qualquer lado, mesmo nos estágios, havia uma coisinha dentro de mim, só que eu nunca me chegava à frente, porque era envergonhado. Recentemente, comprei uma bateria elétrica e pus-me a praticar em casa. Em Guimarães, estava sozinho [sem a mulher] e punha os auscultadores. Dava umas pauladas e não chateava ninguém.
Mas tem bandas preferidas?
Não.
E já tocou para os seus jogadores?
Já, claro. Nas festas de Natal do Vitória de Guimarães, eu tocava bateria, o Neno cantava, e um dos vice-presidentes tocava viola. Ensaiávamos duas ou três músicas e pronto. Os jogadores, na primeira vez que me viram, andaram para lá a dizer: “Então, o que é isto? O homem não está bom da cabeça!”
É um bom garfo?
Sou, sim [mexe na barriga]. Ui, como de tudo, menos, talvez, peixe frito. Gosto de cabidela, por exemplo, e lá em cima, em Guimarães, comia muito. Gosto mais de carne do que de peixe, mas costumo dizer que sou um pouco como os peixes: se me derem muito, como muito; se me derem pouco, como pouco. A minha mãe sempre me ensinou que não se deixa nada no prato!
Cerveja ou vinho?
Vinho.
É vaidoso?
Quanto baste. Não gosto que olhem para mim e pensem que estou desmazelado.
E vive 24 horas para o futebol?
Essa história de viver 24 horas para o futebol... Eu trabalho muito para o futebol, mas sei que serei melhor treinador se souber o que se passa no mundo, fora do futebol. Os clubes estão diferentes, os jogadores estão diferentes, este é um desporto globalizado. A hora e meia de treino talvez seja o menos importante. Temos de saber lidar com os jogadores, administração, o projeto do clube, o planeamento da época, etc.
O que é mais importante? O lado técnico-tático da coisa ou o lado psicológico e emocional?
Antes de mais, um jogador é um ser humano. Se conseguir entrar dentro do ser humano, consigo chegar ao jogador; se quiser começar pelo jogador, talvez não consiga chegar ao ser humano e poderei ter problemas. Os futebolistas são bem pagos, OK, mas têm pais que têm problemas, filhos que têm problemas, mulheres, namoradas... Tudo isto tem importância no rendimento deles. Não tenho de andar a coscuvilhar, mas tenho de conhecer o homem; às vezes, damos um abraço; outras, uma marretada nas costas [risos].
Tem alguma coisa a provar aos adeptos do Benfica, depois de seis anos de Jesus?
Nunca gostei de ouvir jogadores e treinadores que dizem não terem nada a provar. Isso, para mim, é sinal de comodismo. Eu tenho sempre de provar alguma coisa, há sempre alguma coisa que podemos mostrar. O passado é história.
A imagem do treinador importa?
Sim. Temos quatro áreas de intervenção. Uma é a nação benfiquista; outra são os acionistas e a administração; a terceira são os recursos humanos aqui dentro; e, por fim, há a área envolvente, saber em que tipo de clube estou, o que me pedem e o que posso dar. Tenho de estar por dentro de tudo, do lado financeiro, comunicacional, etc.
Sente-se mais do que um treinador?
Não sei se sou, mas gosto de pensar que sim.


grande 'Rui Vitória'...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Yokochi - O regresso à vida


Shintaro Yokochi nasceu a 31 de outubro de 1935 na pequena aldeia de Yokohama, próximo de Hiroshima. Com apenas nove anos, presenciou o inferno criado pelo rebentamento da primeira bomba atómica e é um dos poucos que viveram para contar o que se passou no Japão a 6 de agosto de 1945. Ao Expresso, em 2000, contou como nunca esqueceu as pessoas da sua aldeia que morreram nesse dia trágico, principalmente as muitas mulheres que todos os dias iam com os filhos às costas trabalhar nas fábricas de Hiroshima.

restante 'artigo'

segunda-feira, 8 de junho de 2015

a vida de Sócrates na prisão: "Os Sopranos", "A Guerra dos Tronos", Philip Roth e Grossman...


No dia em que sabe que o Ministério Público propôs alteração da medida de coação de Sócrates de prisão preventiva para prisão domiciliária, o Expresso recupera uma reportagem publicada na revista E a 30 de maio de 2015. Sócrates está há seis meses em Évora e já se adaptou às rotinas da cadeia. Já viu “Os Sopranos” e “A Guerra dos Tronos”. Leu Philip Roth e Vassili Grossman. E tem escrito. Muito. Os amigos garantem que se mantém “determinado em provar a sua inocência.” Seis meses depois, é o retrato da vida do recluso 44

O encontro decorre no Hotel Le Colbert, em pleno Quartier Latin, em Paris. É meio-dia. João Araújo, o advogado, explica a José Sócrates o que vai acontecer quando o ex-primeiro-ministro regressar a Portugal: “Vai ser detido. E provavelmente fica em prisão preventiva.” Propõe-lhe então um plano alternativo: iriam de avião até Madrid e ficavam lá durante o fim de semana. Depois, regressavam a Portugal no carro do advogado e, na segunda-feira, às oito e meia da manhã, apresentavam-se na sede do DCIAP “para prestar os esclarecimentos que fossem necessários”. 

 A previsão de João Araújo não era propriamente mirabolante: o motorista João Perna e o melhor amigo de Sócrates, Carlos Santos Silva, tinham sido detidos e tinha havido buscas policiais a uma casa habitada por um dos filhos do ex-primeiro-ministro. A ‘Operação Marquês’ estava na rua e o cerco do Ministério Público e do procurador Rosário Teixeira era uma realidade difícil de negar.

José Sócrates demora dois minutos a decidir: recusa o plano do advogado com o argumento de que “um ex-primeiro-ministro não pode andar fugido”. E nesse mesmo dia — sexta-feira, 21 de novembro de 2014 —, apanha um avião da Air France com destino a Lisboa. João Araújo não consegue lugar no aparelho e regressa noutro voo. 

 A liberdade de Sócrates termina assim que sai do avião que o traz de Paris. Vem a falar ao telemóvel com um amigo e nem repara nos agentes da PSP e da Autoridade Tributária que o esperam à saída da manga e lhe dão ordem de prisão. Seguem-se três dias de interrogatório às mãos do procurador Rosário Teixeira, titular do processo, e de Carlos Alexandre, o temido juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal.

Os dois magistrados concordam em quase tudo, até na prisão preventiva de Sócrates, indiciado por corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. O MP acredita que Sócrates foi corrompido enquanto era primeiro-ministro para beneficiar o grupo Lena. E que usou as contas bancárias de Carlos Santos Silva para movimentar dinheiro que era na realidade seu: 23 milhões de euros. 

 É a primeira vez que um ex-primeiro-ministro de Portugal é preso (ou quase, porque em 1922, Liberato Damião Ribeiro Pinto, que chefiou o Governo entre novembro de 1920 e março de 1921, foi preso sob suspeita de desviar fundos da GNR) e os regulamentos das cadeias são omissos em relação ao destino que deve ter. Acaba por ir para Évora, para a cadeia dos polícias, onde em princípio estará a salvo de qualquer agressão ou problema mais grave. Chega na madrugada do dia 24 de novembro e recebe o número 44.

restante reportagem no 'Expresso'